Suicídio atípico com dois ou mais disparos efetivos de arma de fogo: casuística do Instituto Médico Legal de Belo Horizonte e implicações periciais


Resumo

O Brasil ocupou o oitavo lugar em números absolutos de suicídios no mundo em 2012. Apesar do suicídio com arma de fogo (AF) não ser a modalidade mais comum, é frequente seu encontro na prática pericial criminal. Na maioria dos suicídios com AF há apenas um disparo efetivo e o encontro de duas ou mais lesões de entrada classifica o suicídio como atípico. Neste estudo foram avaliados os suicídios atípicos com dois ou mais disparos efetivos de AF nas necropsias do Instituto Médico Legal de Belo Horizonte realizadas entre 2006 e 2012. Foram resgatados cinco casos, correspondendo a 2,63% do total de suicídios com AF autopsiados no período estudado. A maioria dos casos era do sexo masculino, solteira, tinha pele morena, apresentava idade média de 42,3 anos e recebeu atendimento médico previamente ao óbito. Em quatro casos foram observadas duas lesões de entrada de projéteis de AF e em apenas um foram observadas três. Todos apresentavam lesões de entrada no tórax, a maioria localizada na região peitoral esquerda. Em dois indivíduos houve lesões de entrada no tórax e na cabeça. A causa da morte da maioria foi traumatismo torácico perfuro-contuso. Apesar da necropsia forense ser crucial no estabelecimento da causa médica da morte e na avaliação da capacidade de desempenhar atos motores voluntários após um primeiro disparo, a investigação criminal de casos de suicídios atípicos é um trabalho multidisciplinar, onde cada uma das peças periciais deve se encaixar adequadamente para o estabelecimento correto da causa jurídica da morte.


Palavras-chave

Suicídio Atípico
Arma de Fogo
Necropsia Forense
Perícia Criminal

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Copyright (c) 2017 Revista Brasileira de Criminalística

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Autor(es)

  • Leonardo Santos Bordoni,
  • Ana Flávia Dias Medeiros,
  • Ana Paula Nogueira da Silva,
  • Andreia Gonçalves Crivellaro,
  • Laysa Oliveira Grossi,
  • Marcella Pedrosa Trindade,
  • Polyanna Helena Coelho Bordoni,
  • Leonardo Santos Bordoni

    Polícia Civil do Estado de Minas Gerais / Universidade Federal de Ouro Preto / Faculdade de Medicina de Barbacena / Faculdade da Saúde e Ecologia Humana.

    Graduado em Medicina pela UFMG. Mestrado em Biologia Celular pela UFMG. Médico Legista do IML de Belo Horizonte. Professor de Anatomia, Neuroanatomia e Medicina Legal. Realiza pesquisas nas áreas de Medicina Legal, Deontologia Médica e Anatomia Clínica.

     

    Ana Flávia Dias Medeiros

    Faculdade de Medicina de Barbacena

    Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina de Barbacena (2016).

    Ana Paula Nogueira da Silva

    Faculdade de Medicina de Barbacena

    Acadêmica de Medicina da Faculdade de Medicina de Barbacena.

    Andreia Gonçalves Crivellaro

    Faculdade de Medicina de Barbacena

    Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina de Barbacena (2016).

    Laysa Oliveira Grossi

    Faculdade de Medicina de Barbacena

    Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina de Barbacena (2016).

    Marcella Pedrosa Trindade

    Faculdade de Medicina de Barbacena.

    Graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina de Barbacena (2016).

    Polyanna Helena Coelho Bordoni

    Polícia Civil do Estado de Minas Gerais / Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão de Minas Gerais

    Médica formada pela UFMG (2010) e especialista em Medicina do Trabalho pelo Hospital das Clínicas da UFMG (2013). Médica Legista da Polícia Civil do Estado de Minas Gerais (2014) e Médica Perita / Médica do trabalho da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão de Minas Gerais (2013).